Brasil fortalece a defesa do aço e enfrenta tensões comerciais: um cenário complexo para a indústria siderúrgica

A política comercial brasileira para o setor siderúrgico está em um ponto de virada, com o governo adotando uma postura mais firme para proteger a indústria nacional. Recentes decisões de elevar tarifas de importação, intensificar investigações antidumping e renovar medidas de proteção contra produtos asiáticos sinalizam uma nova era, mas também geram tensões diplomáticas e questionamentos sobre o futuro do comércio.

Aumento de Tarifas e a Reação Sul-Coreana

No final de janeiro, o Comitê-Executivo de Gestão da Camex surpreendeu o mercado ao elevar para 25% a tarifa de importação de nove tipos de aço, uma medida que antes variava entre 10,8% e 12,6%. Essa ação, válida por um ano, responde diretamente às pressões da indústria nacional, representada pelo Instituto Aço Brasil, que vinha clamando por mecanismos mais rigorosos para conter o avanço das importações.

A Coreia do Sul, um dos maiores fornecedores do mercado brasileiro, reagiu prontamente. Em 2 de fevereiro, Seul enviou uma carta formal ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), solicitando a revisão da decisão. O governo sul-coreano argumenta que suas exportações de aço são vitais para a estabilidade e competitividade da manufatura brasileira, e que a aplicação imediata das novas alíquotas sobre cargas já embarcadas ou com contratos firmados geraria perdas financeiras inesperadas. Além disso, a Coreia do Sul pede isenções tarifárias para aços elétricos de alto desempenho, onde a produção local não atende à demanda.

Esse atrito diplomático surge em um momento delicado, dias antes de uma viagem do presidente Lula à Coreia do Sul, entre 22 e 24 de fevereiro, parte de uma estratégia de diversificação de parcerias comerciais.

Expansão das Investigações Antidumping

Enquanto lida com a pressão sul-coreana, o Brasil avança em outras frentes de defesa comercial. Em 6 de fevereiro de 2026, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) divulgou uma determinação preliminar positiva em uma investigação antidumping sobre fio-máquina de aço carbono originário da China e da Rússia.

A investigação, iniciada em junho de 2025 a pedido da ArcelorMittal Brasil e Gerdau, concluiu preliminarmente a prática de dumping – venda de produtos abaixo do custo de produção – e dano à indústria doméstica. Embora medidas antidumping provisórias não tenham sido aplicadas neste estágio, o prazo para conclusão do processo foi estendido para 18 meses, com decisão final prevista para dezembro. Essa prorrogação, comum em casos complexos, reforça o escrutínio rigoroso sobre as importações de aço, especialmente as de origem asiática.

Renovações e Novas Medidas de Proteção

O governo brasileiro também tem renovado e aprovado medidas antidumping definitivas em diversos segmentos de aços planos. Em janeiro de 2026, foram confirmados direitos antidumping sobre aços pré-pintados provenientes da China e da Índia, além de medidas definitivas sobre folhas metálicas de aço carbono originárias da China.

Outras medidas incluem a prorrogação de direitos antidumping contra produtos da China, Coreia do Sul e Ucrânia para chapas grossas, e contra a China e o Taipé Chinês para laminados planos de aços inoxidáveis. Os laminados planos de aço ao silício (aço GNO) permanecem protegidos até 2030.

O Contexto Global e os Desafios Futuros

A justificativa para o endurecimento da política comercial brasileira baseia-se em relatórios da OCDE que apontam para subsídios que distorcem a concorrência global no setor siderúrgico, especialmente práticas asiáticas como empréstimos subsidiados, benefícios tributários e energia subsidiada.

Este movimento do Brasil combina a política tarifária (elevação temporária de alíquotas) com mecanismos de defesa comercial (medidas antidumping e investigações prolongadas), visando conter importações consideradas desleais ou excessivamente subsidiadas.

Para a indústria nacional, essa postura é vista como essencial diante de um cenário de sobrecapacidade global e pressão de preços internacionais. No entanto, para parceiros comerciais como a Coreia do Sul, as medidas levantam preocupações sobre a previsibilidade regulatória e a integração das cadeias produtivas.

O grande desafio do governo brasileiro será equilibrar a proteção da siderurgia doméstica com a manutenção de relações comerciais estratégicas, em um momento de reconfiguração geopolítica do comércio internacional. A viagem presidencial à Ásia será um importante termômetro de como a agenda de defesa comercial coexistirá com a diplomacia econômica de ampliação de mercados.


Fonte: Infomet, Seção: Siderurgia & Mineração, Publicação: 12/02/2026

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