O setor de aço no Brasil acendeu o sinal de alerta. Durante a abertura do Congresso Aço Brasil 2026, os principais executivos da siderurgia nacional trouxeram para o centro do debate uma preocupação que afeta diretamente o futuro da indústria e os empregos no país: a baixa utilização da nossa capacidade produtiva e a concorrência desleal com o aço estrangeiro.
Abaixo, resumimos os pontos centrais dessa discussão e o que está em jogo para o crescimento da economia brasileira.
O Desafio dos Números: Ociosidade de até 40%
Atualmente, os parques industriais siderúrgicos no Brasil estão operando entre 60% e 65% de sua capacidade. Para os líderes do setor, essa conta não fecha a longo prazo.
“Temos que estar com 80% da capacidade instalada em produção para garantir investimentos, empregos e gerar renda.”
— André Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil (IABr).
Em agosto de 2026, enquanto a produção nacional de aço bruto caiu 4% em relação ao mês anterior (somando 2,7 milhões de toneladas), as importações avançaram 3,2% (atingindo 395 mil toneladas). Essa equação pressiona as usinas locais e reduz a margem para novos investimentos.
Inundação Global de Aço: O Efeito China
O grande problema por trás da invasão de aço importado no Brasil é o excedente global de produção. Estimativas do IABr indicam que existem mais de 649 milhões de toneladas de aço sobrando no mundo — e metade desse volume vem da China.
Para colocar em perspectiva:
- Esse excesso global equivale a 20 vezes toda a produção anual de aço do Brasil.
- Países como EUA, México e membros da União Europeia já ergueram barreiras protecionistas (tarifas e cotas) para blindar seus mercados contra a superprodução chinesa.
- Siderúrgicas brasileiras cobram medidas mais duras do governo federal para evitar que o excesso de aço sem mercado no exterior desague desproporcionalmente no mercado interno.
A Visão do Governo e os Avanços da Defesa Comercial
Participando remotamente do evento, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, destacou as medidas já implementadas pelo governo federal para frear essa onda:
- Medidas Antidumping: Aplicadas no início do ano para conter preços predatórios.
- Queda nas Importações: Redução de 15% na entrada de aço estrangeiro entre janeiro e julho.
- Taxa de Penetração: A fatia do aço importado no consumo nacional caiu de 22,9% para 12,7%.
Embora o setor reconheça o avanço, líderes como Jorge Oliveira (CEO da ArcelorMittal Aços Planos América Latina) reforçam que, apesar do alívio temporário, as ações ainda não são suficientes para blindar o mercado no longo prazo.
Consumo Per Capita e o Desafio do “Custo Brasil”
Outro termômetro preocupante é a estagnação do consumo interno de aço ao longo das últimas décadas:
| País | Consumo de Aço Per Capita (Há 20 anos) | Consumo Per Capita Atual |
| Brasil | 100 kg / habitante | 120 kg / habitante |
| China | 30 kg / habitante | 560 kg / habitante |
Enquanto nações como Índia, México e China aceleraram significativamente suas infraestruturas, o Brasil estagnou na marca dos 120 kg por pessoa.
Além disso, gargalos estruturais como altas cargas tributárias, entraves trabalhistas e insegurança jurídica (o famoso Custo Brasil) continuam tirando a competitividade das indústrias nacionais frente aos concorrentes globais.
O Que Esperar do Futuro?
Para que o setor de aço volte a crescer de forma sustentável, a receita demanda uma combinação de duas frentes:
- Defesa Comercial Efetiva: Manutenção e rigor nas políticas de proteção contra a concorrência predatória externa.
- Estimulo à Demanda Interna: Aceleração de obras de infraestrutura e fortalecimento das indústrias consumidoras (automotiva, construção civil, máquinas e eletrodomésticos).
Sem um mercado interno aquecido e protegido, a recuperação dos parques industriais continuará sendo um desafio contínuo.
Fonte: O Tempo
